terça-feira, 15 de setembro de 2015

O quilombo Kalunga e a cachoeira mais linda do Brasil

Que o nosso país é lindo todo mundo já sabe. Imagine então que existe a cachoeira mais linda do Brasil! Ela fica no quilombo Kalunga, em Cavalcante um dos municípios que fazem parte da Chapada dos Veadeiros. Nas fotos que vimos dela, a água da cachoeira Santa Bárbara era azul turquesa, da cor do céu. Como o município fica no caminho pra chegar em Brasília, que foi o nosso próximo destino, não pensamos duas vezes ainda mais pelo local ser em um quilombo.

De caminhada pelas estradas
Saindo de São Domingos com destino a Cavalcante no início da tarde. Não tínhamos pressa para chegar no local, então, fomos seguindo lentamente acompanhando a paisagem linda de Goiás.
Resolvemos passar a noite em Monte Alegre. Porém saindo dos nossos planos, no meio do nada a Sacica para de funcionar outra vez. Ainda bem que nós temos como tripulante da nave Victor, meu irmão, que é mecânico.  Sabe quase tudo de mecânica e sempre nos salva dos perrengues. Ele começou a mexer no motor de dia e lá foi trabalho até de noite. Passou uma hora, duas e nada. Ver ele mexendo ali é como falar russo, não entendo nada.
Quando o motor funcionou pulamos de alegria e nos mandamos para a cidade, mortos de fome. Enfim chegando, sem nenhuma vontade de fazer janta, comemos a primeira pizza da viagem. Tava bão demais! A noite, passamos em um posto sem bandeira. Tínhamos comido tanto que não demorou para cairmos no sono.  
De manhã logo cedo colocamos o relógio para despertar. Estávamos sedentos por dar um pulo na cachoeira, é isso que dá ficar andando em Goiás você fica mal acostumado querendo tomar banho de rio todo dia.
Chegamos em Cavalcante logo após o horário de almoço. Estacionamos na praça central e começamos a cozinhar. Como temos fogão da Sacica, evitamos comer fora, pois fazendo nossa própria comida economizamos quatro almoços e quatro lanches ou jantas no final do dia. Podemos contar nos dedos os dias que comemos "fora", não devem passar de cinco.
Cavalcante é uma cidade calma e pacata. O pessoal é conversador e simpático. É tão bom perceber a pureza na voz das pessoas. Conversar um papo furado com desconhecido e se sentir bem, se sentir segura.
Conversando com o vendedor de garapa soubemos de uma festa de Geologia promovida pela UNB que estava ocorrendo em uma pousada. Desse modo, a cidade estava cheia de universitários, com público para a gente. Um deles veio puxar papo e nos levou na cachoeira lava-pés. Bom pequenina porém, com sua beleza também.
O mineiro que agora estudava na capital do Brasil nos deu a localização da festa. Após o pôr do sol, lindo demais, nos seguimos até o local que ficava bem afastado pelo meio do mato. Queríamos tentar entrar na festa, somente por aquela noite, com o nosso espetáculo de fogo e assim poder entrar e tentar vender algum artesanato. A organizadora que nos recebeu não quis nem saber não, não e não e saiam logo daqui do estacionamento. Enquanto isso lá dentro uma grande reunião acontecia para saber se poderiam ou não soltar bomba no camping do evento. Arte não pode, mas a bomba ta liberada!

Kalunga, tudo de bom

Kalunga quer dizer "tudo de bom" em dialeto banto africano. Nome não mais que perfeito para aquele paraíso. O quilombo fica bem afastado no alto da Serra, pelo que os moradores falaram lá é mais de 1000m acima do nível do mar, ou seja a energia lá é forte demais. A distância até lá é de 28km de estradas de chão com pontes bem pequenas, passagens por dentro de pequenos rios e todo tipo de aventura que uma estrada de chão pode ter.
E não bastasse tanta aventura fomos eu e Ana pilotando a nave até lá, ou seja, mais aventura ainda. Como estamos aprendendo é sempre mais emocionante, digamos assim.
Na metade do caminho existe um mirante em que a paisagem é fenomenal. Você se sente pequenininho vendo tudo aquilo. Enquanto íamos subindo devagarzinho com a Combi, caminhões cheio de passageiros na caçamba iam subindo a Serra também. Ambos curiosos nos olhávamos e nos cumprimentávamos.
Santa Bárbara é uma das inúmeras cachoeiras que existem no entorno de Cavalcante. Aqui no site da cidade tem fotos e localização das outras (clique aqui). Mas pela suas águas azuis escolhemos por ela. O grande porém de tudo aquilo era o preço da entrada, R$25,00 pela entrada e mais o guia que custa R$70,00 (um preço justo, porém não dispúnhamos desse valor). Como lá sempre tem bastante gente você consegue fazer um grupo grande e assim repartir o valor do guia. Nós, certamente, não tínhamos essa grana, então chegamos no local com o intuito de trocar nossa entrada por um espetáculo de circo e oficinas com as crianças da comunidade.
Chegamos lá e já procuramos a professora da escola Luana, ela nos recebeu muito bem e amou a ideia. Pediu, então, para falamos com Cirilo, um dos líderes da comunidade. O senhor negro, com aparência saudável e viril regava suas plantinhas. Quando chegamos, parou tudo que estava fazendo, sentou conosco e ouviu nossa proposta. Ele aceitou na hora, adorando a ideia. Combinamos que no dia seguinte, domingo, de dia faríamos oficina com as crianças de circo e  artesanato iríamos nos apresentar pela noite.
Nesse meio tempo ele aproveitou para contar um pouco da história do local. Tudo começou quando os negros e os índios de uniram contra a escravidão nas minas de ouro no centro do Brasil. Os negros queriam fugir e os índios conheciam a mata, eles entravam nos matos e lá começavam a firmar suas primeiras comunidades. Hoje eles contam com mais de 700 famílias nos Engenho II, Prata, Vão do Moleque e Vão das Almas. Após muito bate papo, agradáveis momentos, ele nos ofereceu um pé de jatobá para estacionarmos em baixo aproveitando a sombra para ficarmos aqueles dois dias, liberando nossa estadia no local enquanto precisássemos.

Santa Bárbara, a mais linda do Brasil
O céu estava azul como sempre.Ao redor aquelas casas diferentes, com telhados de palha de buriti, arvore nativa da região.Galinhas e crianças  brincavam juntas. Uma imagem bem interiorana. O ar era puro, bom de se respirar enchendo nosso corpo de amor.
Tínhamos ainda o dia todo e estávamos ansiosos pela cachoeira mais linda do Brasil. Conversamos com o guia Josué para que quando o próximo grupo chegasse nós fossemos juntos. Ele ficou meio assim mas quando falamos que estávamos ali depois de ter falado com Seu Cirilo, pudemos seguir a vontade. 
A ida até a cachoeira, tanto a Santa Bárbara quanto a Capivara, só podem ocorrer com o acompanhamento de um guia, que são pessoas da própria comunidade. Seguimos com um grupo de jovens de Goiás mesmo. Os olhos deles brilharam quando viram a Sacica. Estacionamos o carro e seguimos um trecho a pé.
Seguindo pela trilha o guia nos contou a lenda do nome da cachoeira. Bárbara era uma senhora sozinha e reservada que morava em sua casa simples na beira da água. Por lá, passava todo o tipo de viajante que eram recebidos em sua casa com carinho e afeto. Um dia porém, (que final mais triste) ela foi encontrada morta em sua casa com uma facada. Em homenagem, o local foi batizado com seu nome.
Na trilha a maioria das árvores, principalmente as nativas da região, tem placas com os nomes populares e científicos. O guia vai explicando tudinho, é muito legal ter alguém com tanto conhecimento acompanhando.
Andamos alguns minutos, e chegamos na Santa Bárbara filha, a cachoeira de água azul pequena. Em um primeiro momento eu não sabia que aquela era a menor. Surpreendida com tanta beleza, quando soube que tinha a mãe, não podia acreditar que a natureza pudesse ser tão maravilhosa.
Depois de um mergulho rápido, seguimos alguns metros até a Santa Bárbara mãe. A queda era muito alta, a cor da água se confundia com o azul do céu. Segundo o guia o que faz a água ser daquela cor são calcários no fundo que geram um azul lindo.  A água que é tão cristalina que vemos as pedras no fundo. Como temos um óculos de mergulho, podíamos ainda desfrutar de uma visão inusitada do fundo. Que privilégio poder ver tanta beleza! O resto do grupo seguiu destino a segunda cachoeira, a Capivara. Nos fomos nos recolher, pois amanha era dia de atividades.

Tempo é arte
Voltamos da cachoeira no final da tarde e já encontramos as crianças da comunidade. Amor a primeira vista, pessoas animadas, numa Combi colorida, ali deve ter coisa boa, pensaram elas. Nosso descanso foi trocado por muita brincadeira. Tivemos aquele primeiro contato, meio desajeitado e logo estávamos amigos, brincando de roda e de malabares. O monociclo e o trompete foram a maior diversão das crianças.
A noite foi caindo e aos poucos as crianças tinham que ir para suas casas. Nos despedimos com a promessa de que amanhã tinha mais. Tínhamos horário e local marcados. Naquela  noite, mais uma vez, fomos presenteados com um céu de estrelas maravilhoso.
Domingo começou com toda a energia. Logo cedinho o galo cantou, bem do ladinho da Combi, não nos deixando mais dormir. Isso era legal para nós, que costumavamos acordar com o som do despertador. Pouco tempo depois, além do galo, lá estavam elas, querendo que acordássemos logo para brincar e curtir aquele dia de sol.
Diferente do que pensávamos, mais do que malabares, eles ficaram empolgados com os dois skates que tínhamos na Combi, então, em um primeiro momento, mudamos de oficina de circo para oficina de skate. Mas como toda criança, logo perderam o interesse e ai chegou a vez da oficina de malabares.
A criança que mais nos chamou a atenção e que logo nos demos bem, foi Danilo. Menino curioso, simpático e educado. Olhava pra tudo na Sacica, perguntando sobre cada detalhe. Outro que também de cara nos chamou a atenção, foi Reinaldo. Esse, ao contrário, mostrou ser o mais bagunceiro da turma.
A oficina de malabares foi bem legal, andamos pela comunidade a procura de garrafas PET para fazer funis e areia para fazer o recheio das bolinhas de malabares. Eles adoraram produzir. Como Reinaldo já queria roubar as bolinhas dos outros, escrevemos o nome de cada um na sua bolinha. Ensinamos eles a jogar. Todo mundo muito animado, até que, quando finalizamos a atividade, eles destruiram as mesmas para usar a bexiga para fazer um brinquedo que lembra um estilingue, em que se atiram pedras. Crianças fazendo coisas de criança...


Hoje tem palhaçada? Tem sim senhor!
No dia anterior, combinamos com Cirilo de fazermos um espetáculo de circo no domingo a noite, as 19:30. Ele então, avisou o pastor da cidade para que avisasse no culto. Ele porém, fez mais que isso, avisou com um carro de som que andava pelas ruas "hoje a noite, as sete e meia estão todos convidados para o espetáculo circense da Sacirco em frente ao salão comunitário", quando ouvimos o chamado, ficamos super ansiosos.
As crianças continuram ali conosco após o almoço, trocando ideia, tirando sarro, mexendo nos malabares. Mas eles queriam mesmo era os skates. Tínhamos proibido que eles andassem pois mais cedo, eles cariam na porrada para ver quem iria brincar com o bord. Depois de explicar que aquilo não era legal, pois eramos todos amigos, tiramos também o brinquedo deles, por um tempo.
Enquanto fazíamos o ensaio final eles ficavam lá implorando para usá-los. Como não queríamos perder a magia da apresentação, fizemos eles prometer que não haveriam brigas e emprestamos para eles de novo. Danilo ficou o dia todo com a gente, ajudando na arrumação das coisas, sempre perguntando e querendo participar. No final da tarde ele vai para casa, toma um banho rápido e retorna, todo arrumadinho de camisa xadrez para a apresentação de circo.
Com o final do dia chegando, fomos começando a organizar as coisas. Estica a lona, arruma luz, monta cenários. Conseguimos uma caixa de som emprestada com uma moradora local, mãe de Rafaela e Arthur, duas doces crianças. Preparamos nossa sequencia de músicas, vestimos nosso figurinos e fomos esperando o tempo passar.
Por sorte, encontramos nossa amiga de Alto Paraíso, a Ju Brasil, que nos ajudou com os registros fotográficos. Diversas vezes não temos registro das atividades por estarmos os quatros envolvidos.
Demos aquele atrasinho básico para dar uma animada e entramos no palco. A platéia estava cheia de crianças. Fizemos a abertura com uma interação gostosa e partimos para as acrobacias. Fizemos palhaçadas, malabares com troca de passes e aplaudímetro. Fizemos também duas mágicas. Um dos momentos mais tensos foi quando chamamos um homem da plateia para jogar facas em cima dele. Era perceptível que eles nunca tinham visto aquilo antes. Todos ficaram apreensivos.
Para finalizar, fizemos nossa apresentação de fogo, a Floresta Encantada, uma apresentação cheia de misticismo e símbolos xamanicos. Para eles porém, ver meninas vestidas de fadas, um duende entrando na perna de pau só podia ser uma coisa: risada. Eles gargalhavam a cada passo nosso e, pela primeira vez, nossa apresentação de fogo se tornou uma palhaçaria toda.
Ao final, ouvir os aplausos daquele pessoal, foi de alegrar o coração. Dividir aquilo que você sabe, aquilo que você ama, aquilo que você faz e se esforça com o público e receber tantas palmas e elogios, só pode gerar a mais profunda gratidão.
Todos se retiraram e nós, fomos guardar nossas coisas. Danilo foi o último a ir embora. Pedi para que, no outro dia, antes da aula, ele viesse na Combi que nós queríamos presenteá-lo. O galo cantou logo cedo, mas fomos acordados mesmo as  6:30 quando nosso amigo subiu na escadinha lateral da Sacica e começou a nos chamar pela janela da barraca.
Nos levantamos aos poucos e eles já estava lá com seu sorriso no rosto. Antes de partimos peguei nossa asa e mostrei a ele nossos artesanatos dizendo que ele escolhesse uma. Sua escolha foi por um colar de ametista. Coloquei em seu pescoço e disse que guardasse ele sempre, como lembrança e sinal de gratidão.







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